O risco é a minha profissão
A frase que dá título a este artigo não deveria existir. Mas, infelizmente, é o reflexo de uma realidade que muitos profissionais enfrentam diariamente: instalações improvisadas, perigos ignorados e soluções que desafiam o bom senso técnico. A imagem em questão mostra uma unidade de ar condicionado instalada no beiral de um telhado — já por si um local de difícil acesso e alto risco. Mas o que mais choca é a forma como essa máquina está fixada: com cola e vedante.
Sim, leu bem. Cola e vedante. Não há estrutura metálica, não há parafusos, não há ancoragem mecânica. Apenas uma camada de material selante, como se estivéssemos a colar um cartaz numa parede e não a instalar um equipamento pesado, sujeito a vibrações, intempéries e manutenção periódica.
Improviso não é engenharia
A utilização de cola e vedante como método de fixação é uma aberração técnica. Estes materiais não foram concebidos para suportar cargas estruturais, muito menos em ambientes externos, expostos ao sol, chuva e variações térmicas. Com o tempo, a aderência degrada-se, o risco de desprendimento aumenta — e quem paga o preço é o técnico que sobe ao telhado para fazer a manutenção, ou pior, qualquer pessoa que esteja abaixo quando a unidade ceder.
Este tipo de improviso revela uma falha grave na cadeia de responsabilidade: desde o projetista que não previu uma base segura, ao instalador que aceitou a solução, até ao cliente que provavelmente desconhece os riscos envolvidos. É uma roleta russa técnica, onde o próximo acidente é apenas uma questão de tempo.
Segurança não é opcional
Trabalhar em altura já é, por si só, uma atividade de risco. Quando somamos a isso uma instalação instável, sem fixação adequada, sem guarda-corpos, sem linha de vida, estamos a colocar o profissional numa situação de vulnerabilidade extrema. E não se trata apenas de cumprir normas — trata-se de respeitar vidas.
A legislação portuguesa é clara: qualquer instalação deve garantir condições seguras de acesso e manutenção. O uso de EPIs, estruturas de suporte e métodos de fixação certificados não são recomendações — são obrigações. Ignorá-las é negligência.
O custo da irresponsabilidade
Pode parecer mais barato colar uma máquina ao telhado do que construir uma base metálica ou reforçar a estrutura. Mas esse “poupança” é ilusória. O custo real aparece quando há um acidente, quando há danos materiais, ou quando a máquina se solta e causa prejuízos. E, acima de tudo, o custo humano — que não tem preço.
A responsabilidade técnica exige mais do que conhecimento: exige ética. Um profissional não pode aceitar soluções que colocam em risco a sua vida ou a de outros. Uma empresa não pode permitir práticas que violam os princípios básicos da engenharia. E um cliente não pode fechar os olhos ao que está por trás da fachada.
Conclusão: chega de improviso
“O risco é a minha profissão” não pode ser um lema. Tem de ser um alerta. Um grito contra a normalização do improviso, da negligência e da irresponsabilidade. Fixar uma máquina com cola e vedante é mais do que um erro técnico — é um atentado à segurança.
Está na hora de mudar. De exigir instalações seguras, profissionais valorizados e práticas que respeitem a vida. Porque nenhuma máquina, nenhum projeto, nenhum orçamento justifica colocar alguém em risco. E porque, no fim das contas, a verdadeira engenharia começa com respeito.
CLIMAnet 2025