Londres, a “Cooling Hierarchy” e o Risco de Portugal Repetir o Mesmo Erro

Ar Condicionado

A polémica recente em Londres, onde alguns moradores foram obrigados a remover unidades exteriores de ar condicionado em plena vaga de calor, expôs uma tensão que também interessa a Portugal: como conciliar metas ambientais, regras urbanísticas e proteção efetiva da saúde pública num clima cada vez mais quente.

O caso britânico não corresponde a uma proibição nacional do ar condicionado. Resulta, antes, da aplicação de regras locais de planeamento urbano, em particular em municípios como Camden, que seguem a chamada “cooling hierarchy”: uma hierarquia de soluções que dá prioridade a medidas passivas — sombreamento, ventilação natural, isolamento, orientação solar ou redução de ganhos térmicos — e deixa a climatização ativa como último recurso.

A intenção é compreensível: reduzir consumo energético, limitar emissões e evitar impactos visuais nos edifícios. O problema surge quando uma política concebida para melhorar a sustentabilidade é aplicada de forma rígida, ignorando o conforto térmico, a segurança dos moradores e a realidade física dos edifícios existentes.

1. O que aconteceu em Londres

As notícias sobre Londres deram origem a interpretações exageradas. Não houve uma ordem generalizada para desmontar aparelhos de ar condicionado em toda a cidade. O que existiu foram decisões concretas de fiscalização urbanística, sobretudo relacionadas com unidades exteriores instaladas sem autorização ou sem demonstração suficiente de necessidade técnica.

Nos casos reportados, as autoridades locais entenderam que os moradores não tinham esgotado alternativas passivas antes de recorrerem à climatização ativa. Em alguns processos, foi sugerido que a abertura de janelas, o uso de ventilação natural ou outras soluções de menor consumo deveriam ser suficientes. Essa leitura tornou-se especialmente controversa quando coincidiu com temperaturas extremas e alertas de risco para a saúde.

A questão central não é saber se o ar condicionado deve ser instalado sem regras. Deve haver regras. A questão é saber se essas regras podem continuar a tratar o arrefecimento mecânico como uma comodidade dispensável, quando as ondas de calor se tornam mais frequentes, intensas e perigosas.

2. Porque o caso deve preocupar Portugal

Portugal parte de uma posição mais vulnerável do que Londres. As temperaturas máximas são, em muitas regiões, mais elevadas; as vagas de calor tendem a ser mais prolongadas; e grande parte do parque habitacional foi construído antes de padrões exigentes de eficiência energética e conforto térmico.

Muitos edifícios portugueses acumulam calor durante o dia e libertam-no lentamente durante a noite. Nestas condições, abrir janelas pode ser insuficiente ou até contraproducente, sobretudo quando a temperatura exterior permanece elevada, quando há ruído, insegurança, poluição ou quando os moradores são idosos, crianças, doentes crónicos ou pessoas com mobilidade reduzida.

Além disso, muitos prédios não dispõem de zonas técnicas adequadas para equipamentos de climatização. A instalação de unidades exteriores acaba, por isso, dependente de autorizações condominiais, interpretações municipais e preocupações estéticas que nem sempre ponderam devidamente a habitabilidade das frações.

3. O erro a evitar

O erro não está em promover soluções passivas. Pelo contrário: sombreamento, isolamento, ventilação cruzada, coberturas verdes, caixilharias eficientes e proteção solar devem ser a primeira linha de resposta. O erro está em transformar essa preferência numa barreira quase absoluta ao ar condicionado, mesmo quando as soluções passivas não garantem condições mínimas de conforto e segurança.

Se Portugal importar uma lógica semelhante sem a adaptar à sua realidade climática e construtiva, poderá agravar vários problemas: conflitos entre condóminos, desigualdade entre edifícios novos e antigos, bloqueio de soluções para moradores vulneráveis e decisões administrativas centradas na aparência das fachadas em vez da saúde das pessoas.

A adaptação climática exige equilíbrio. Não basta reduzir consumos energéticos no papel; é necessário garantir que as casas continuam habitáveis durante os períodos de calor extremo. Uma política pública que protege a estética urbana, mas deixa pessoas expostas a temperaturas perigosas dentro de casa, falha no essencial.

4. O que Portugal deve fazer de forma diferente

Portugal deve tratar o arrefecimento dos edifícios como parte da política de habitação, saúde pública e eficiência energética. Isso não significa liberalizar instalações sem critério, mas criar regras claras, previsíveis e tecnicamente sólidas.

a) Reconhecer o conforto térmico como requisito de habitabilidade

A legislação deve reconhecer que o conforto térmico já não é um luxo. Em contexto de alterações climáticas, a capacidade de manter uma habitação a temperaturas seguras deve ser entendida como parte da qualidade mínima de vida, sobretudo para pessoas vulneráveis.

b) Clarificar regras para condomínios e municípios

Os condomínios devem poder definir critérios estéticos e técnicos, mas não deveriam bloquear soluções essenciais sem alternativa viável. As câmaras municipais, por sua vez, precisam de orientações objetivas sobre ruído, localização, impacto visual, segurança e eficiência dos equipamentos, evitando decisões casuísticas.

c) Criar zonas técnicas comuns nos edifícios existentes

Nos prédios antigos, a solução passa muitas vezes por organizar tecnicamente aquilo que hoje é resolvido de forma improvisada: zonas técnicas em coberturas ou logradouros, caixas exteriores uniformizadas, corredores verticais para tubagens e soluções coletivas ou semicoletivas de climatização.

d) Incentivar equipamentos eficientes e bem integrados

Bombas de calor, sistemas multisplit, equipamentos compactos e soluções de baixo ruído podem reduzir o consumo e o impacto visual quando são instalados segundo critérios técnicos adequados. A resposta não deve ser proibir, mas orientar, qualificar e fiscalizar melhor.

5. Conclusão: aprender com Londres, não copiar Londres

O caso de Londres mostra como uma política ambiental bem-intencionada pode tornar-se problemática quando é aplicada sem flexibilidade e sem atenção suficiente ao risco térmico. Portugal deve retirar uma lição simples: a adaptação climática não pode opor sustentabilidade a conforto; tem de integrar ambos.

Num país mais quente, com muitos edifícios envelhecidos e uma população vulnerável ao calor extremo, o ar condicionado eficiente e bem regulado deve ser encarado como parte da solução — não como um problema a eliminar. O verdadeiro desafio é criar regras que permitam climatizar melhor, consumir menos e preservar a qualidade urbana sem sacrificar a saúde e o bem-estar dos moradores.

CLIMAnet 2026

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